RELAÇÃO ENTRE SISTEMA IMUNITÁRIO E TUMORES. IMPORTÂNCIA DA ALIMENTAÇÃO NO METABOLISMO DO CANCRO

Publicado por DigitalConnection no dia 1.04.2019

É do conhecimento geral e de longa data a importância da alimentação na manutenção de um sistema imunitário equilibrado, e na prevenção de muitas, eu diria de todas as patologias, designadamente o cancro. [1]

Quero esclarecer que não trato de tumores, mas apenas chamar a atenção para a importância da alimentação na eventual génese e progressão da doença, pois muitas vezes os utentes procuram conselho dietético e alimentar, dado ninguém lhes falar deste importante pilar da nossa saúde, e terem a perfeita noção de que algo deve ser mudado. Dizer inclusivamente ao utente que “pode comer tudo, inclusivamente doces” nesta situação particular, está deveras errado e temos de ter consciência disso.

Esta falta de informação ao utente sobre o “terreno” onde se desenvolveu a doença dever ser mudado, é aliás frequente ser observada nestas situações de tumores, o que me entristece ver. Tratamos a doença. Mas não tratamos a saúde, não tentando mudar nada do que antes favoreceu o aparecimento da doença.

Hoje os utentes lêm muito e estão bem informados. Todos temos de acompanhar e saber um pouco de alimentação, exercício físico, suplementação alimentar, equilíbrio hormonal e estilos de vida saudáveis, para que eventualmente tudo corra bem, e sabermos orientar o que não estiver ao nosso alcance a especialistas nas matérias. Estes são os cinco pilares da medicina que deviam ser por todos nós entendidos (alimentação, exercício físico, suplementação alimentar, equilíbrio hormonal e estilos de vida saudáveis). Tratar só o sinal e sintoma da doença, não tratando da prevenção e do terreno onde ela se desenvolveu…é protelar eventualmente um mau desfecho.

Comer mal, stressa o sistema imunitário e facilitará o aparecimento da doença.

Alimentação, sistema imunitário e tumores estão pois relacionados. Estimamos que a genética é responsável por cerca de 10% dos casos de tumores, sendo a epigenética, ou seja tudo o que fazemos do nosso ambiente, a responsável pela “desrrepressão do gene” mesmo que ele lá esteja, e pelo desenvolvimento da patologia. A genética pode preparar a arma, mas somos nós que disparamos o gatilho. Daí que costumo dizer e todos temos de ter esta consciência: o nosso corpo é aquilo que nós comemos. Já Hipócrates há mais de 2000 anos tinha esta visão, tão fácil de perceber, mas aparentemente tão difícil de ser respeitada e lembrada na hora da refeição.

Há uma estreita relação entre alimentação e sistema imunitário, logo e tumores.

Stress agudo ou crónico, e relembro que o stress não é apenas emocional e devido a factores psicossociais mas também físico (por exemplo, exercícios físicos violentos, radiações) e químico(por exemplo a pílula anti concepcional), vão favorecer pois o aparecimento da doença.

É sobejamente sabido, para quem estuda um pouco, que o sistema imunitário secreta péptidos precursores de neurotransmissores, e que as células tumorais e o stress, por acção nas células imunitárias, levam ao bloqueio de células efectoras na resposta imunitária, como os linfócitos NK (natural killer).

Esta resposta é muito individual, pois as pessoas reagem ao mesmo acontecimento com formas diferentes de “stress”, tendo isto tudo a haver com modulação comportamental desenvolvida desde a nossa vida intra-uterina e sobretudo com os nossos primeiros anos de vida, experiências vividas e sentidas ao longo do tempo. Daí que eu aconselho sempre a tentar ver a parte boa das coisas, não se agredirem com “filmes” maus, não procurando a desarmonia, mas trabalhando para o alcance dela.

A verdade é que todas as situações de “stress” ao nosso corpo, quer emocionais, físicas ou químicas, fazem com que as nossas glândulas supra-renais secretem mais cortisol e catecolaminas, ou seja, estimulam o nosso sistema nervoso chamado “simpático”. Estas hormonas inibem os glóbulos brancos, involuem o timo, levando a uma supressão do sistema imunitário, deixando o indivíduo mais susceptível às infecções e tumores. Cortisol alto aumenta o TGF (factor de crescimento tumoral), inibe os macrófagos, as células que de imediato vão responder tentando “destruir” as células cancerosas que diariamente se formam no nosso corpo, inibindo como vimos outras células do sistema imunitário.

Muitos trabalhos relacionam o nível de stress com o nível de supressão do sistema imunitário.

O stress e a tensão nervosa levam a uma reacção de “luta ou foge” que caracteriza a elevada subida do cortisol nestas situações. Por exemplo, se tivermos um leão à nossa frente, enquanto as nossas supre-renais funcionarem bem, só temos uma de duas hipóteses: ou lutamos, ou fugimos. Se as glândulas supre-renais já não forem eficazes nesta resposta de cortisol, vamos sucumbir à mercê do leão.

Temos pois de compreender, que o nosso sistema imunitário funciona melhor em meio “parassimpático”, que estimulamos durante os períodos de sono, descanso, relaxamento e meditação.

Daí que mais uma vez, a importância do sono e da sua qualidade é fundamental, e a primeira situação a corrigir em qualquer utente, não sendo lícita a utilização imediata de hipnóticos, ansiolíticos ou anti depressivos, que podem acarretar problemas futuros.

O metabolismo tumoral
O cancro foi tido até há pouco tempo, como devido a mutações do DNA. Esquecemo-nos do metabolismo tumoral, desde que descobrimos a existência de oncogenes, capazes de promover o cancro e dos genes supressores de tumores, capazes de reparar esse mesmo DNA e de regular o processo de morte celular “apoptose”.

Mas antes destas mutações acontecerem existem desequilíbrios locais, estruturais e metabólicos a nível celular.
A medicina moderna centra-se em “destruir o inimigo” e não em “compreender o que causou esse comportamento agressivo”.

Relembro aqui a importância da epigenética, sendo a manifestação do ambiente na expressão genética.
Quero com isto dizer que mesmo sem qualquer modificação na sequência do DNA, os genes podem “funcionar” mal, devido ao ambiente em que vivemos.

Podemos ter alterações na transcripção do DNA, activação aberrante de determinados genes, alteração do controlo da replicação cromossómica, da silenciação dos genes implicados na cascata de iniciação e progressão do cancro.

A sequência simplificada para compreensão deveria ser então:
Alteração do metabolismo celular
Expressão génica anómala (alteração da transcripção do DNA, inactivação de genes supressores)
Mutação do DNA
Cancro
Em 1931, Otto Heinrich Warburg foi Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia pelos seus trabalhos que demonstraram a fermentação em meio anaeróbio (falta de oxigénio). Nesta situação a célula sem oxigénio torna o meio ácido, necessário ao desenvolvimento dos tumores como já todos ouviram falar.
O cancro pode então ser visto como consequência de uma alimentação e um estilo de vida anti fisiológico, pois todas as formas de cancro se caracterizam por duas condições básicas: a acidose ( por eliminação de iões hidrogénio do interior da célula cancerosa que assim é alcalina intracelularmente) e a falta de oxigénio.

As células cancerosas são na verdade “anaeróbias” (não precisam de oxigénio para viver) e não sobrevivem em altos níveis de oxigénio.

Digamos pois que o metabolismo tumoral é anaeróbio, requer ph ácido e fermentação de açúcar.
Uma mitocôndria ( a nossa fábrica de energia celular) normal gera 38 moles de ATP por cada mol de glucose, para dar “energia celular”, enquanto que uma célula tumoral gera apenas 2 moles de ATP por cada mol de glucose.
Assim as células tumorais precisam MUITO de açúcar para efectuarem essa fermentação e poderem gerar o ATP, energia necessária à sua sobrevivência. Têm pois uma necessidade aumentada de açúcar, 20 a 30 vezes mais que uma célula normal, utilizando a glicólise anaeróbia que produz ácido láctico e a tal acidose.
Espero que tenham compreendido então que a célula tumoral precisa de açúcar para se desenvolver e sobreviver, pelo que dar açúcar ao utente é apenas alimentar e facilitar a progressão dos tumores, mesmo quando ainda não estejam manifestados.
Com uma mudança dietética de restrição de açucares e amidos é possível então, fragilizar as células cancerosas, alterar o seu meio de subsistência e fazê-las “morrer de inanição”, reactivar o seu metabolismo mitocondrial, deixando de ser anaeróbias e torná-las então mais vulneráveis à terapêutica (quimioterapia e radioterapia, menos eficazes em células anaeróbias), e alcançando assim mais sucessos terapêuticos.
É a alcalinidade intracelular que levará a alterações específicas nos genes, que desempenham funções patológicas quer na origem, crescimento e progressão tumoral incontrolada.

E que fazer?
Pelo que já falámos, espero que toda a gente tenha percebido a má influência do açúcar no metabolismo tumoral, o que promoverá e facilitará o desenvolvimento e proliferação do tumor.
De facto o nível de glucose sérico não deve ser superior a 85 mg/dL, em jejum, e em qualquer momento do dia não deveria ultrapassar os 140 mg/dL.
Aqui faço um à parte para a necessidade dos laboratórios clínicos terem o cuidado de centrifugar os sangues após a colheita e retracção do coágulo, e não ao fim da manhã, aguardando numa bancada até que todos os soros desse dia sejam centrifugados.
Sei que isto ainda acontece quando vejo glucoses de 40 mg/dL, não justificadas clinicamente. Há um decréscimo de 7-10 mg/dL por hora do nível da glucose no sangue, pelo consumo dos eritrócitos. Logo se um utente tirar sangue às 8 da manhã, e o sangue for centrifugado às 13 horas, o nível de glucose pode baixar cerca de 50 mg/dL, e o utente pode pensar que tem 80 mg/dL quando teria 130 mg/dL em jejum, o que já é considerada uma entidade “pré-diabética” chamada de “alteração da glucose em jejum”.
Enfim, eu pessoalmente não gosto de ver análises em jejum, pois tenho de ver é a reacção do corpo ao “dia a dia” do utente, e como já expliquei por diversas vezes os “intervalos de referência” das análises nada têm que ver com os valores “normais” ou “aceitáveis”, mas significam tão só e apenas que 95% da população para aquele grupo etário está dentro daqueles valores. Entre sãos e utentes que acorrem aos laboratórios.

Mas continuando a nossa conversa, níveis de glucose acima de 85 mg/dL produzem reacções químicas com proteínas e gorduras chamadas de glicação, um dos principais inimigos da longevidade, além de alimentarem as células cancerosas.
Quando a glucose em jejum estiver entre 110 e 124 mg/dL, o risco de morte aumenta cerca de 40% e este risco duplica se este intervalo se situar entre 126 e 138 mg/dL.

Glucose elevada está de facto relacionada com mais cancro em diversos e múltiplos trabalhos, e com maior resistência aos tratamentos de quimioterapia, no cancro da mama, e possivelmente em todos os outros.
O organismo responde a estes níveis elevados de glucose com mais insulina, que como também já falámos para trás noutros posts promovem o desenvolvimento das células tumorais.

Relembro as três principais consequências de picos de insulina: proliferação de células adiposas, proliferação de células tumorais e baixa de hormonas anabolizantes, pois todas são também hiperglicemiantes e o corpo que tão bem tenta equilibrar tudo, ao receber açúcar inibe-as para tentar restabelecer o equilíbrio.

Mesmo na população não diabética, níveis de insulina basais elevados relacionam-se com acréscimo de mortalidade por cancro.
A Hemoglobina glicada (HgbA1c), que é uma análise que nos permite perceber a relação dos eritrócitos com o açúcar presente no sangue nos últimos 3 meses, é um parâmetro importante da avaliação, e verificamos que o risco de mortalidade por qualquer causa é duplo se estes níveis são superiores a 7% quando comparados com população com níveis abaixo de 6,5%.
Os diabéticos apresentam de facto maior risco de desenvolvimento de tumores, segundo alguns estudos um risco bastante mais elevado, de cerca de 40% superior aos não diabéticos.

Alguns trabalhos recentes apontam um risco mais elevado de cancro do pâncreas nas mulheres com diabetes gestacional.
Por todos estes motivos, controlarmos a ingestão de açúcar é fundamental.

Não podemos esquecer que a doença aparecerá como desequilíbrio celular do terreno. Temos assim relacionada a genética, a epigenética e o terreno biológico.

A genética como vimos será responsável por cerca de 10% dos tumores, e mesmo assim, o aparecimento mais cedo ou tardio, depende de todo o terreno biológico e da epigenética.

A epigenética continua a investigar a instabilidade génica, as alterações da transcripção aberrante de determinados genes, a predisposição à instabilidade génica, o papel crucial dos oncogenes e genes supressores, mas continuamos com uma questão fundamental: que factores causais iniciam todo este processo de desestabilização e mutação do DNA.

O terreno biológico é saudável quando existe um equilíbrio psico-emocional, fisiológico e bioquímico, que mantém em equilíbrio o nosso corpo e sistema imunitário.

São factores que desiquilibram o terreno biológico: a alimentação moderna, o stress psico-emocional, a inflamação crónica, o stress oxidativo, a disbiose intestinal, a deficiência de oligoelementos, os xenobióticos, a acidose metabólica.

Sobre quase todos estes temas já falámos anteriormente. Peço para reverem o que escrevi sobre disrupção endócrina, dada a importância do assunto, esquecido pela maioria de nós.

Hoje todas as plantações estão cheias de pesticidas, herbicidas, e o tabaco fica a anos luz de distância de causa de cancro quando comparado com a alimentação como causa de doença. Daí que voltamos ao início: a importância da alimentação, do tipo e qualidade de alimentos que consumimos, como os mastigamos e digerimos, é fundamental à manutenção de um estado de saúde saudável.

Tarefa difícil actualmente. Mas em que devemos pensar. E como eu ridiculamente digo: variar as toxinas. Entre carne, peixe, frutas, legumes, ovos, frutos secos e leguminosas secas germinadas, não ingerindo qualquer e nenhum produto processado, “pacotes de…” como costumo dizer, sejam eles bolachinhas de água e sal, sem glútem, barrinhas cereias, pacotes bolachas, gelatinas, alimentos enlatados ou em frascos com estabilizantes…
Verdade que a carne está cheia de hormonas e antibióticos, o peixe cheio de plástico e mercúrio, os legumes biológicos, que até podem não ter insecticidas ou pesticidas e herbicidas têm só um “remediozinho inocente para as lesmas”, mas com que água são regados e com que terra são estrumados? Os ovos estão cheios de arsénico que dão às galinhas por ser bactericida, e por aí adiante, mas é o que temos. Variar produtor e ter preferência por produtores locais, pequenos mercados. Reler os posts sobre alimentação e disrupção endócrina.

 

Então que fazer?
– Controlar a alimentação, variando ao máximo “as toxinas”, tentando comer produtos naturais e biológicos
– Controlar a disrupção endócrina tendo conhecimento dos disruptores endócrinos
– Controlar a disbiose e inflamação. Tratar o intestino é fundamental. “Todas as doenças começam no intestino”.
– Controlar o pH, relembrando que o pH interno das células tumorais é alcalino, e o externo ácido, pois elas libertam hidrogeniões do interior da célula (H+)
Controlar o pH centra-se em avaliar todo o utente de um modo global para que possamos identificar quais as suas carências nutricionais em determinados oligoelementos que daremos para restabelecer esse equilíbrio. Passa pela ingestão de soluções específicas que contêm estes oligoelementos mas relembro que a nossa alimentação pode por si só ser mais ácida ou alcalina.

Referências

[1]
Dieli-Conwright CM1,2, Sweeney FC1, Courneya KS3, Tripathy D4, Sami N1, Lee K1, Buchanan TA5, Spicer D2, Bernstein L6, Mortimer JE7, Demark-Wahnefried W8., “Hispanic ethnicity as a moderator of the effects of aerobic and resistance exercise in survivors of breast cancer.,” Cancer., 2018 Nov 30..