HORMONAS E CANCRO

Publicado por Ivone Mirpuri no dia 1.08.2016

Vou tentar resumidamente explicar porque penso que este problema da eventual relação do cancro e hormonas (não bioidênticas) nunca vai ter consenso.

Em primeiro lugar há um facto que temos de compreender e se calhar nunca pensámos nele: só se fala dos estudos “positivos”, quer isto dizer, de estudos onde a conclusão foi de que cancro aumenta com utilização de hormonas (neste caso, hormonas não bioidênticas). Estudos onde não se verificou qualquer aumento da frequência ou até mesmo um efeito protector em relação às hormonas, ninguém fala, pois não são alarmantes , nem sensacionalistas e não ficam pois retidos na nossa mente.

E na verdade se vamos a ver a bibliografia existente, em cerca de metade dos estudos não se verifica esta relação. Então ficamos baralhados. De que valem os estudos e a ciência se uns dizem que sim e outros que não? Não sabemos que aconselhar, fazer ou pensar. E pelo sim e pelo não, o melhor é não usar!

Mas o que temos de pensar todos é que esta controvérsia acontece porque não é possível controlarem-se todas as variáveis que podem interferir nos estudos e que sabemos serem potenciais causadoras de cancro da mama e de que ninguém fala, como por exemplo se a mulher bebe cafés e quantos, se fuma, se bebe álcool, se é obesa e tem resistência periférica à insulina, se não faz exercício físico, se come mal, se faz medicações anti depressivas e ansiolíticos, se faz inibidores dos enzimas de conversão e algumas outras medicações para a hipertensão, se fez uso de pílula anticoncepcional por longo tempo e início antes dos 20 anos, se…e este “se”… prolongar-se-ia quase indefinidamente à luz do conhecimento actual. Todos este “se”s aumentam o risco de cancro da mama, mais do que o uso de hormonas não bioidênticas.

Mas paradoxalmente ninguém fala deles, e mais, se a mulher não dorme por causa da menopausa, é logo aconselhada a fazer um ansiolítico e/ou antidepressivo, em vez de se efectuar a terapêutica hormonal…por causa do cancro!!! Ou seja não se dá hormonas por causa do cancro e dá-se em contra-partida e por desconhecimento, outras substâncias que ainda aumentam mais o risco!

Não fazer a terapêutica a uma mulher sob o lema de que “faz cancro” não é a meu ver uma boa prática clínica.

Se só 30% das mulheres sofrem dos aterradores “calores”, TODAS e todas quer dizer 100% terão, se não fizerem hormonas, a secura vaginal, a atrofia das mucosas, a incontinência urinária, a diminuição da libido, a maior flacidez da pele, para não falar da sensação de cabeça vazia, perdida, falta de concentração e falta de memória e um sem número de outras queixas. E a osteoporose estará lá sem dúvida um dia não tarde.

Não é justo não se tratar da mulher que muitas vezes é chefe de família, muitas vezes sozinha, com filhos a seu cargo, tem de trabalhar em casa e fora de casa, ser mãe, esposa, trabalhadora, gestora do lar, motorista, foi outrora uma super mulher que fazia 10 tarefas ao mesmo tempo e agora está limitada a uma insegurança que a perturba e aflige, não dormindo, e com mais stress, não estando feliz, nem podendo dar conta dos múltiplos recados a que tem de acudir.

Todos deveríamos pensar nisto. Chegam-me mulheres a dizer-me que “não quero viver assim”. E só vivemos uma vida. A saúde não é ausência de doença. É além disto estarmos felizes e contentes, em sintonia com a vida e isto só é possível se tivermos o nosso equilíbrio hormonal estabelecido.

As hormonas existem para desempenharem determinadas funções químicas no corpo, é fácil de compreender, que não estão lá para “enfeitar” o corpo. E mantê-las, (não aos níveis dos 20 anos, acho isso um absurdo, pois o que é importante é o equilíbrio que temos de manter, e aos 50, 60 ou mais o nosso equilíbrio químico já nada tem a haver com o dos 20 anos) é ajudar o corpo a conseguir manter tudo o que nos permitirá ter uma boa e melhor qualidade de vida.

Imensa coisa mudou, e repor hormonas aos níveis dos 20 anos causaria um desarranjo que o corpo teria de trabalhar para reequilibrar, e o que temos de fazer é facilitar o corpo e ajudá-lo e não dar-lhe trabalho escusado. Os cromossomas já não são os dos 20 anos, as enzimas perderam capacidades, todo um resto de situações conhecidas ou ainda desconhecidas pela ciência mudou. Temos de ser ponderados e apenas procurar ajudar nunca passando o nível fisiológico de cada um de nós.

E se a mulher estiver equilibrada hormonalmente não está em stress e sim o stress está relacionado com o cancro, penso que aqui ninguém discute.

Enfim, entristece-me ver que muitos colegas e utentes sob o estigma de que hormonas fazem cancro, entram num caminho que leva a consumo de ansiolíticos e anti depressivos como tentativa de resolução dos problemas da mulher e estes sim têm um risco de cerca de 6 vezes mais de cancro da mama, além dos problemas a longo prazo, de falta de memória, flacidez, mau sono, etc, que se estabelecem com o avançar do tempo.

É meu dever cívico e profissional informar sobre isto, pois estudo diariamente, tenho a vantagem de poder participar em congressos internacionais onde estes assuntos são debatidos e há 8 anos que efectuo as consultas de menopausa onde sei bem os benefícios indiscutíveis que as hormonas bioidênticas, pois apenas utilizo estas (e não são manipuladas) fazem às mulheres.

Ser “contra” só pode revelar falta de conhecimento ou sentido não crítico ao que se ouve.