O QUE É A MEDICINA ANTI-ENVELHECIMENTO

Publicado por Ivone Mirpuri no dia 1.06.2016

A Medicina anti-envelhecimento, até há pouco tempo tida como uma “fantasia”, uma especialidade “não científica” e pouco credível, é hoje uma realidade bem definida e cientificamente comprovada.
O interesse no anti-envelhecimento hoje em dia estende-se a toda a população e é bom que os médicos estejam na vanguarda deste conhecimento para não serem ultrapassados caindo na estagnação e obsoletismo. Hoje o utente está bem informado, sabe o que quer, procura e discute connosco o seu diagnóstico, muitas vezes com um grau de profundidade que me apraz bastante e com um conhecimento muito mais profundo do que alguns colegas.
A medicina mudou, a forma de olharmos para ela tem de mudar! Não podemos “fechar os olhos” à realidade e fazer ou não fazer porque o “livro de texto diz”!
São décadas até que muito do conhecimento actual se expresse nos livros de texto de Medicina! Não podemos “enterrar a cabeça na areia” quando a cada dia, temos a evolução do conhecimento a um nível difícil de acompanhar para quem estuda muito e diariamente. Quanto mais para aqueles que por força das circunstâncias não o fazem!
Tenho colegas amigos que me confidenciam que nunca mais estudaram! Isto verifica-se por falta de tempo dos colegas que têm 40 horas semanais de trabalho, mais 24 ou mais de urgências médicas, mais todos os extras para ver! E 15 minutos no máximo por consulta!
É impossível fazermos uma medicina personalizada desta forma!
Harvard, uma faculdade conceituada nos EUA tem um departamento de Medicina Anti-Envelhecimento, dedicado à investigação.
Em 2009, Elizabeth H. Blackburn, Jack W. Szostak e Carol W. Greider foram galardoados com o Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina na sequência dos seus trabalhos a nível dos telómeros, telomerase e anti-envelhecimento.
Nós envelhecemos por diversos mecanismos, entre os quais o stress oxidativo, o encurtamento dos telómeros e a queda hormonal que se verifica com a idade.
Estes 3 cientistas descobriram o mecanismo utilizado pelas células para impedir o encurtamento dos cromossomas através da enzima telomerase.
A medicina anti envelhecimento é uma medicina preventiva que tem como objetivo proporcionar-nos uma melhor qualidade de vida, atrasando sinais e sintomas relacionados com o envelhecimento.
Não é o elixir da juventude, nem tem por objetivo acrescentar mais anos de vida.
O que a medicina faz atualmente muitas vezes, é prolongar a vida do utente à conta de prolongar a doença. Há que pensar-se “antes”, prevenindo e retardando o aparecimento das chamadas doenças degenerativas, e isto hoje consegue-se sim, através de um equilíbrio do nosso corpo trabalhando os cinco pilares em que assenta a medicina anti-envelhecimento: Nutricão, Exercício físico, Suplementação Alimentar, Suplementação Hormonal, fundamental e de facto aquela sobre a qual eu me dedico mais, e a Mudança dos Hábitos de Vida. É da sinergia destes elementos que podemos aumentar a nossa vitalidade, retardar o nosso envelhecimento e estender eventualmente a nossa longevidade.
A população está a envelhecer e temos de facto de procurar uma via que nos faça gastar menos recursos económicos com a doença. Cerca de 90% dos recursos gastos com a saúde de cada um de nós são usados após os 65 anos de facto. A relação entre pessoas com mais de 65 anos e pessoas válidas com menos de 65 anos e que contribuem para o sistema económico da Segurança Social é cada vez maior, ou seja há cada vez menos novos a trabalharem para a população “velha” com mais doenças e que mais gasta dinheiro ao Estado, de forma incomportável, pois este não atuou na medicina preventiva.
Desde há tempos que a suplementação e o exercício físico são tidos como importantes. E são-no indiscutivelmente. Mas não bastam.
A modulação hormonal é fundamental. As nossas hormonas vão baixando cerca de 1-3% ao ano a partir dos 30-35 anos.
Chegamos aos 40 anos já com deficits manifestados clinicamente e aos 60 e 70 com deficits muito marcados.
A cada segundo morrem no nosso corpo cerca de 10 milhões de células que têm de ser regenaradas e substituídas. As hormonas, sobretudo as anabolizantes como a IGF1, a HGH, o estradiol, a testosterona, estimulam as células estaminais e desempenham um papel fundamental neste processo de regeneração celular. Múltiplos são os estudos neste sentido e da comprovação do aumento dos factores de crescimentoe das stem-cells com a modulação hormonal bioidêntica.
Há que fazer a modulação hormonal sempre que necessário pois, pois todo o sistema endócrino participa no processo de envelhecimento. As nossas hormonas são fundamentais para que todos os sistemas e metabolismos funcionem bem. Ao baixarem os nossos níveis hormonais, o nosso corpo não funciona tal como antes, na juventude e começam então a aparecer as doenças e a diminuir a nossa qualidade de vida. Inicia-se o processo de envelhecimento. O que queremos é melhorar a qualidade de vida nos anos que temos para viver, e vivermos assim consequentemente mais felizes.
Tal como vimos, 90% dos recursos económicos gastos com cada um de nós na saúde, são gastos depois dos 65 anos. Num País onde os incentivos à fixação da população jovem, não existem, em detrimento das facilidades dadas a residentes estrangeiros da 3ª idade…é bom repensar a saúde em Portugal, pois não haverá, na verdade já não há população nova que compense os gastos que temos com o pessoal de mais idade.
Faria mais sentido investir em prevenir a doença desde cedo, para que os anos vindouros sejam produtivos e vigorosos. Não devíamos querer um dia ser um peso à sociedade nem à família!
Daí que há que repensar a medicina e a saúde actuando na prevenção. Para que cheguemos a velhos…novos 
Não morremos por termos IDADE. Morremos por causa das doenças degenerativas associadas à idade: Cancro, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC), Doenças cardiovasculares, Diabetes, Hipertensão, Doença Pulmonar Crónica Obstrutiva, Osteoporose. Estas 7 causas representam 70 % das causas médicas de morte em quase todo o Mundo.
E se formos a pensar bem, em todas estas patologias, a obesidade por exemplo participa na génese de todas elas. E a obesidade, tal como o tabaco, o álcool, os níveis altos de glucose as dietas ricas em gordura trans ou baixas em ácidos gordos polinsaturados, omega3 frutas e vegetais, tal como a inactividade física, todos estes factores podiam ser trabalhados educando a população e adquirindo “hábitos e estilos de vida saudáveis”.
A Medicina anti envelhecimento (MAE) é exactamente uma nova forma de olharmos para a medicina, e o objectivo dela é prevenir ou adiar o aparecimento “doença degenerativa” associada à idade.
O corpo é bioquímica e tudo isto está relacionado. A alimentação é capaz de ser o pilar mais importante pois fornece os nutrientes para que as reacções bioquímicas funcionem bem. O exercício liberta citoquinas anti-inflamatórias e ajuda a produzir as hormonas. A alimentação correta potencia a acção das hormonas e dá os nutrientes para que o corpo as produza e se mantenha equilibrado. A suplementação alimentar, quando necessária, favorece o funcionamento de todos os nossos sistemas e metabolismos, é um círculo em que não há princípio nem fim sendo que todas as linhas se conjugam e sobrepõem.
Os avanços a nível da ciência e da medicina estão na eminência de descobertas que aumentarão a nossa longevidade média actual de 84 anos para mais de 100 anos! Só temos de estar vivos e de boa qualidade de vida nos próximos 10 anos para que possamos eventualmente usufruir de todas estas descobertas que estão a surgir a cada dia!
O que aprendemos em Medicina? A tratar a “doença”. Aprendemos sinais e sintomas, aprendemos a fazer diagnósticos e depois temos SEMPRE um protocolo para tratar cada doença. Ou quase sempre, pois muitas vezes fazemos o diagnóstico brilhante à custa de muito gasto emocional, físico e económico do utente, e nada temos para oferecer.
Ora cada utente é um ser único e não pode haver pois protocolos, pois que o que eu for dar a um não actuará da mesma forma do que em outro corpo dado que um come de determinada maneira, exercita-se e não fuma e não bebe por exemplo, e o outro fuma, bebe, não faz exercício físico, nem come bem. Daí que em MAE, o que aprendemos é a ver estes pilares todos e a PENSAR no que fazer para ajudar a cada situação individual vendo o utente como um todo, um conjunto indissociável e não ”as partes”.
Actualmente o que acontece na maioria das vezes é que estamos à espera que algo negativo aconteça e só depois tentamos tratar. Só depois do facto constatado e consumado!
A MAE é uma forma diferente de abordarmos o utente, usando métodos preventivos, estando alerta para sinais e sintomas precoces que nos podem dar indicação e orientação para a detecção precoce de qualquer patologia, não deixando a doença manifestar-se e permitindo tirar o melhor proveito da vida atrasando todo o processo do envelhecimento.
Na MAE vemos o utente como um todo, damos atenção a todas as suas queixas, temos de ter tempo para o ouvir. É impossível isto fazer-se quando nos hospitais se dá pouco mais de 10 mn para ver cada utente!
Sem tempo, não teremos a subtileza de diagnosticar o que podia ser diagnosticado, e limitamo-nos a olhar para os chamados “exames complementares”, não fazendo os diagnósticos corretos, pois nós temos de ver o utente e não apenas os exames! E estes têm de ser correctamente interpretados e olhados pois muitas vezes nos permitem detectar com muitas décadas de antecedência alguma alteração cujo desfecho poderia ser fatal se não trabalhado de imediato.
O caso mais flagrante é o caso do hipotiroidismo subclínico não diagnosticado. Queixas frequentes como mãos frias, pés frios, dor e rigidez matinal das articulações, a fadiga, o acordar cansado, a facilidade em engordar com todos os cuidados, a prisão de ventre, a tendência depressiva, estão entre os sintomas e sinais major do hipotiroidismo. É frequente o utente não ser diagnosticado porque “as análises estão normais”!
Ou olharmos para uma homocisteína alta e não a “vermos” convenientemente, não a tratando e participando para a instalação de um risco de enfarte do miocárdio aumentado ao nosso utente.
Ou pior, lermos as análises pelos intervalos de referência(IR) concluindo que “tudo está bem” quando assim não deveria ser, pois os IR são determinados pelo laboratório e incluem os utentes desse laboratório (sãos e doentes). Na verdade os laboratórios utilizam os IR referidos pelas casas comerciais que vendem os kits de determinação.
E estar dentro do IR não significa pois estar bem. Estes IR são calculados pelo valor médio da população e mais ou menos 2 desvios padrões o que quer dizer que 95% da população está nesse intervalo. Há sempre cerca de 2,5% de utentes cujo valor “normal” (palavra de que não gosto) está acima desse IR e 2,5% de utentes cujo valor “normal” está abaixo desse IR.
Em Medicina temos valores “óptimos” de que gostamos e não devemos pois ler as análises pelos IR, coisa que utentes…e médicos, muitas vezes fazem.
Temos de ter em atenção que o IR para o estrogénio por exemplo numa mulher em menopausa é < 9 ng/L, mas esse não é o valor óptimo que queremos. Queremos cerca de 90 ng/L caso contrário estaremos sempre perante o risco da osteoporose, e todas as terapêuticas de que dispomos são anti-reabsotivas não aumentando osso “de novo”. Há pois que prevenir em vez de remediar.
Também o DHEA(s) por exemplo que vai como todas as hormonas baixando com a idade pode estar no IR e estar baixíssimo, sendo que quando o repomos, o que devemos fazer, se lermos pelo IR estaremos aparentemente em “excesso” para aquela idade.
Os valores analíticos são muitos oscilantes no nosso organismo, variando com a alimentação, exercício físico, actividade física, etc.
Os únicos valores que são estáveis no nosso organismo na idade adulta são os chamados “marcadores tumorais”. E nem todos, mas a maioria.
De facto, estes parâmetros não indicam a presença ou ausência de doença, servindo apenas para a monitorizar.
Mas sendo estáveis, é importante termos uma marcação prévia, para que nos sirvam de orientação durante o tratamento, pois como vimos, estar dentro do IR não significa que se esteja bem.
A minha experiência prática fez-me mudar o que eu antes, tal qual como aprendemos, dizia quando um utente me vinha pedir para fazer “todas as análises tumorais para despiste”. Em tempos idos eu respondia sempre: “Não, que é gastar tempo e dinheiro, pois só servem para monitorizar a doença”. Mas após 32 anos de curso e muita experiência laboratorial e clínica, hoje não há utente nenhum que eu veja sem marcação prévia para que tenha os seus valores basais.

Reforço que estes valores são estáveis (podendo estar acima ou abaixo do IR) na ausência de doença se efectuados em laboratório de qualidade pois a variabilidade técnica é baixa, não permitindo grandes variações.
Mas devemos tê-los, pois são os “nossos” valores basais em ausência de doença.
Enfim a ciência avançou e a medicina não mudou e tem de mudar. O próprio conceito de saúde que era definido pela OMS como “ausência de doença” há anos que mudou, sendo que actualmente a OMS define saúde como “ESTADO DE COMPLETO BEM ESTAR FISICO MENTAL E SOCIAL E NÃO SOMENTE AUSENCIA DE AFECÇÕES E DEFORMIDADES”.
Para a MAE saúde é muito mais do que não estarmos doentes! É estar em sintonia com a vida, sentindo entusiasmo, alegria, energia e paixão pela vida! É estarmos felizes e isso só conseguimos mantendo uma mente são num corpo são, tal como já diziam os gregos na antiguidade.